IX - Escrever é solitário

Só que não.

Recentemente, comecei a estudar um pouco mais sobre leitura crítica. Estou, inclusive, fazendo um curso sobre o assunto. Esse é, afinal, um outro jeito de olhar para os livros, diferente do jeito que o autor tem de enxergar os próprios projetos embora, no fim das contas, estejam intrinsecamente relacionados um ao outro. 

O leitor crítico é uma das primeiras pessoas que vai ler o livro quando o autor decide que o manuscrito está “pronto”. É alguém que vai olhar para o livro como um todo, encontrar seus pontos fortes e fracos e apontá-los para que o autor, outra vez, faça modificações (ou não). 

Em certa medida, é um segundo par de mãos a mexer com o texto. Alguém que, em certa medida e com a devida vênia, vai “escrever” essa história junto com o autor, embora apenas a voz deste último vá ressoar quando o livro de fato estiver pronto. 

Pensando sobre tudo isso, me veio à mente a imagem do escritor que costumamos ver retratado em filmes e até em séries. A figura quase mítica do autor que vive por sua obra, tão obcecado com seus personagens que, vez ou outra, é capaz até de esquecer do mundo real. 

Devo confessar, essa figura meio lendária do escritor sempre me atraiu. Talvez porque eu mesma seja um pouco assim, meio obcecada com meus personagens e as histórias que eles têm pra contar. Quanto mais adentro aos bastidores do livro, no entanto, mais me dou conta de que essa figura solitária e desbravadora de mundos é, na verdade, um tanto quanto folclórica.

Não me entendam mal. Escrever é, por si só, uma arte de descobertas. Quase uma escavação, de certa forma. Autores dedicam muito tempo e muito de si mesmos para criar cada uma das suas histórias, e embora esse seja um processo particular para cada um de nós, ele nunca é fácil. Não basta apenas “sentar e escrever”, como já ouvi de algumas pessoas. 

É na solidão que se concentra a minha questão, aqui. 

Quer dizer, eu mesma passo uma boa quantidade de horas do dia (que nunca parecem nem remotamente suficientes) debruçada sobre um projeto, escutando meus personagens e tentando, com uma boa dose de boa sorte, descobrir onde cada parte das suas histórias se encaixa. Faço isso sozinha, com a ajuda das músicas ressoando nos meus fones de ouvido. 

Quanto mais penso no meu próprio processo criativo, porém, mais me dou conta de quanto dessa “solidão” não passa de uma impressão. Uma ilusão, para ser mais exata. Criação daquele “imaginário do escritor” que todos nós, de mais ou de menos, carregamos conosco.

Eu gosto de falar, entende? Gosto de contar minhas ideias para ouvidos que sei que vão prestar atenção de verdade, e isso me ajuda. Falar me ajuda a enxergar buracos. A encontrar soluções para problemas de enredo que, até cinco minutos atrás, pareciam insanáveis.

Tudo bem, na maior parte das vezes não tem ninguém escrevendo comigo. Essa parte, de fato, faço “sozinha”. Mas, mesmo depois de um rascunho “pronto”, existem muitos outros processos. 

Edição. Leitura crítica. Leitura sensível. Preparação. Diagramação. Revisão.

Enfim, uma infinidade de outras pessoas, de outros olhares, que vão atuar sobre aquele material até que se torne um livro até que ele, enfim, se torne como aqueles que encontramos quando passeamos por uma livraria. 

O livro é do autor, sim. É nosso e de todas as incontáveis horas e da gigantesca quantidade de energia que gastamos para criá-lo. Mas, se pararmos para pensar, se olhamos para todos que, de alguma forma, trabalham para transformar a ideia em um livro real, a nossa dita “solidão” se torna, se não irreal, ao menos um pouco menos nítida. 

Escrever pode, e muitas vezes é de fato, um processo bastante pessoal e solitário. Mas não é só de solidão que se formam as palavras, na minha humilde opinião. Elas podem vir, também, de uma junção de olhares. De muitos fragmentos diferentes que, unidos, se transformam em uma figura, no mínimo, interessante.