V - Das primeiras leituras do ano

Quando o ano começa cheio de boas promessas

Eu tenho uma tradição literária que já dura alguns anos, tantos que, na verdade, nem sou mais capaz de precisar quando foi que ela começou: todo ano novo deve começar com uma nova leitura. 

Sei lá, é como um presságio de boa sorte. Uma espécie de simpatia para fazer desse novo começo o melhor que ele puder ser. Nem sempre dá certo, mas eu sempre tento, e a tentativa desse ano foi um audiobook. 

Matchá às segundas feiras é, essencialmente, um livro sobre segundas chances. Não, não é uma história sobre chás, apesar do que o título pode sugerir. É uma história sobre pessoas. Sobre como, muitas vezes, seria bom deixar o acaso ditar parte do nosso caminho só para ver o que acontece. 

Esse livro, que nem é tão grande assim, deixou em mim uma impressão profunda. Fez florescer em mim um sentimento de acalento. Me ajudou a respirar com facilidade, e a lembrar que está tudo bem dar voltas até, por fim, chegarmos ao lugar onde de fato precisamos estar. 

Depois desse, o que me encontrou foi uma história de lobos. Heartsong é o terceiro livro de uma série de quatro, e dentre todos os que li até agora, foi o que mais me atingiu. Se tornou um favorito, muito pela sua delicadeza em tratar de temas que, por uma ou outra razão, são bem sensíveis. 

Essa é uma história sobre família, e não apenas de sangue. É sobre a família que se escolhe. Aquela que formamos ao longo da vida, os laços que construímos com tempo e paciência até que, por fim, se tornem inquebrantáveis. É um livro sobre encontrar o seu lugar no mundo, não importa o quão quebrada seja a versão de você que emergiu dos golpes que levou. 

Ah, e por falar em lugar no mundo.

A última das leituras que me acompanhou nestes primeiros doze dias do ano também fala sobre isso. Oração para Desaparecer, da Socorro Acioli, foi a escolha de leitura para um clube do livro do qual eu faço parte, e confesso que embarquei no livro sem saber muito a respeito dele. 

Conheço a autora de nome, é claro, e tinha na cabeça comentários de pessoas das quais confio na opinião, de que essa seria uma leitura especial, para lá de encantadora. Mesmo assim, eu não tinha ideia do quanto. Não podia sequer começar a mensurar o quão profunda era essa história, e o quanto ela ressoaria em mim.

Foi como ouvir o canto de uma sereia. 

Foi mágico e sofrido e tão delicado que, em alguns momentos, podia se comparar com uma delicada bolha de sabão, prestes a estourar a qualquer momento. 

Esse não é um livro fácil de ser lido, e isso não tem haver com a forma como ele foi escrito (brilhantemente, por sinal), mas nos sentimentos que ele evoca. 

É uma história de perdas, de nós e dos outros. Uma história de preconceitos, injustiças e dores imensuráveis. Uma história sobre encontrar o seu lugar no mundo mesmo quando o mundo já não é mais o mesmo e você não faz ideia da pessoa que costumava ser. 

Uma história que, eu tenho certeza, ainda estará comigo mesmo quando chegar a hora desse novo ano terminar. 

E ainda assim, resta um bom pedaço de mês para ser vivido. Dias que, me conhecendo, serão preenchidos com mais algumas leituras. Conto sobre elas pra vocês em algum ponto do futuro, prometo!