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VII - Das voltas ao mundo
Os livros podem nos levar para viajar, e nem todos os lugares são acolhedores
Todo livro, pelo menos pra mim, é como fazer uma viagem. Conhecer outros costumes, outra cultura, outros sonhos que não são os nossos. É, em si, um processo de descoberta, e quando chegamos à última página, tenha sido uma leitura agradável ou não, já não somos as mesmas pessoas que abriram a primeira.
Algumas histórias evanescem rápido. Se esvaem, feito névoa, depois que a leitura termina. Mas outras ficam. Grudam na gente, igual aquelas gelecas que as crianças da minha época usavam pra brincar, e nos acompanham por um bom tempo depois que fechamos o livro.
Uma das minhas últimas leituras foi dessas.
O Silêncio da Andorinha é o segundo livro de uma duologia, e conta a história de um garoto, que por ser diferente, por muitos anos acredita ter uma “doença incurável e terrível” quando, na verdade, ele é apenas uma pessoa. Só alguém com um coração capaz de amar e que, pelos caminhos tortuosos da vida, acaba se apaixonando por outro garoto durante um acampamento de verão.
A despeito desse sentimento, que se preserva quase inocente durante boa parte da história, esse não é um livro sobre o amor. Ou, melhor dizendo, não é um livro sobre o amor romântico, somente.
Trata-se, na verdade, da história de um garotinho assustado. De um jovem que, rodeado por ódio e medo, passou anos da sua vida sem acreditar ser merecedor de nada bom ou gentil. A história de uma criatura quebrada, que precisou primeiro descobrir a própria humanidade antes de, em fim, estar pronto para receber o amor de outros.
Junto de Volódia, passeei pela Rússia soviética. Vi o país se abrir, suas peças desmantelando enquanto um garoto crescia e se habituava a usar máscaras entre pessoas que deveriam amá-lo por quem ele era.
Vi esse garoto construir uma casa enorme para si, cômodos vazios que se habituou a dividir com uma cachorrinha alegre. Vi ele se tornar o padrinho de uma garotinha e ir, por muitos e muitos anos, visitar um mesmo velho salgueiro, cheio das suas recordações mais brilhantes.
Mesmo por entre as páginas, eu pude ouvir a música. O som do piano que crescia e se agigantam, querendo abafar todos os sons do mundo.
Agora, já faz uns dias desde que li a última página. Muitas e muitas horas desde que me despedi de Volódia e Iura, dessa vez com a certeza de que, mesmo que o caminho não tenha terminado, os dois vão ficar bem. E, mesmo assim, ainda posso ouvir.
Se fechar os olhos e me concentrar, posso ouvir as teclas do piano. Posso escutar a melodia dessa história que, por vezes, foi tão dolorosa e sofrida de acompanhar, mas que em outros momentos pôde, também, ser gentil e brilhante. Luminosa, feito um raio de sol a iluminar um pátio escuro no meio do inverno.
Depois de tudo, essa história ainda está comigo. Arrisco pensar que vai ficar aqui, enraizada. Que, mesmo com outros livros a virem depois, mesmo com as mudanças e o passar do tempo, ainda vou me lembrar deles por um longo e bom tempo.