VIII - É importante que você não desista

Um dia você vai escrever uma história. É muito importante que você não desista dela

Escrevi minhas primeiras histórias em um caderno da moranguinho, de linhas cor de rosa. Na época, eu não sabia que ia querer “ser escritora”. Pra ser sincera, eu nem pensava muito em quem eram as pessoas que escreviam os livros que eu gostava de ler. Eu só gostava de inventar histórias. 

De lá pra cá, troquei os cadernos pelo teclado do computador, e as histórias que antes contavam com apenas algumas páginas, foram ficando cada vez maiores (e algumas um tanto quanto mais malucas). No fim, eu descobri o que é que um escritor faz.

Entendi que a escrita é bem mais do que simplesmente colocar um punhado de palavras no papel, e que a primeira versão de um livro está bem longe de estar pronta para ser lida. 

Mesmo depois dessas descobertas, porém, e de um número um tanto quanto grande de rascunhos guardados no meu computador, a escrita ainda me parecia um sonho inalcançável. Coisa que outras pessoas, com mais talento ou mais sorte, faziam. Eu só escrevia, mas isso não me tornava uma “escritora de verdade”. 

Sabe o que é? Eu costumava ter a ideia errada de que escritores eram apenas aqueles cujos livros eram publicados. Acreditava que o “escritor de verdade” era aquela pessoa que tinha a escrita como a única ocupação. 

Como Alice que caiu na toca de um coelho e descobriu um mundo fantástico, porém, não demorou muito para que eu percebesse que tudo era um tanto mais complexo. Para descobrir que a realidade daqueles que escrevem no Brasil é bem menos idílica do que eu pensava. É raro entre nós, afinal, as míticas criaturas que dedicam-se apenas a escrever seus livros, sem terem que dedicar parte dos seus dias a outros trabalhos para dar conta da vida real. 

A escrita, na realidade da maioria de nós escritores brasileiros, é mais uma coisa da nossa lista enorme de tarefas. Talvez a que mais amamos e nos deixa felizes, sim, mas raramente a única a tomar nossas horas. 

Já não basta apenas escrever, entende? Você precisa estar presente nas redes. Precisa ser visto para ser lembrado. Precisa, muitas vezes, passar horas do seu dia em outro trabalho e, no fim, encaixar ao menos uma horinha do seu dia para trabalhar em alguma história. 

E tem dia que não dá. 

Tem dia que a vida te atropela e você não tem energia. 

Tem dia que as palavras te fogem, e não sai nada mesmo que você saiba que é importante criar constância e ritmo quando se trata de escrever. 

Tem dia que a vontade de desistir é muito, muito grande. Afinal, faz anos desde a última vez que você publicou alguma coisa, e desde lá tem a sensação de que tudo anda meio empacado quando se trata da sua criatividade.

Em muitos desses dias, o pensamento recorrente é de que, talvez, simplesmente seja melhor parar de tentar. 

Foi assim comigo, especialmente durante a primeira metade do ano passado. Eu não conseguia escrever direito, não confiava o bastante nas minhas histórias para levá-las pra frente. Me sentia sufocada, como se as palavras estivessem bem ali, todas entaladas na minha garganta, dificultando a minha respiração.  

Se antes eu já não me via como uma “escritora de verdade”, tudo piorou um pouco mais. Eu sentia, não sem uma boa dose de tristeza, que o meu era um sonho sem asas. Algo que, no fim, não adiantava querer tanto. 

Porque não ia dar certo. 

Porque eu não ia conseguir. 

Porque eu precisava concentrar meus esforços em algo que me garantisse segurança e estabilidade. Ninguém, ou quase ninguém, vive de escrita nesse cantinho do mundo, afinal. 

Porque eu não era boa o bastante. 

Confissão: eu não me lembro de, um dia, ter me achado boa o bastante para contar as minhas próprias histórias. 

Mas aí eu tive uma ideia. Mais uma pra minha coleção infinita de ideias. A história de um príncipe capaz de matar apenas de encostar na pele descoberta de alguém. E do seu meu melhor amigo, que sempre viu nele mais do que um monstro. 

Eles me estenderam a mão, me ajudaram a reavivar a chama desse meu mais caro sonho e, aos poucos, bem devagarzinho mesmo, e por muitos dias apoiada em pessoas que nunca deixaram de acreditar que poderia dar certo, eu voltei a escrever. 

Voltei a colocar palavras no papel, e foi como tirar a cabeça pra fora da água. Como respirar, livre e profundamente, pela primeira vez em um bom tempo. 

De lá para cá, as coisas melhoraram. Gosto de pensar que, aos pouquinhos, começo a construir para mim mesma uma ponte da confiança, tijolinho por tijolinho. 

Não é muito fácil, e tem dias que parece que tô prestes a cair de novo. Mas na maior parte do tempo, trabalhar nessa história tem sido bom. Tem me ajudado a descobrir, a cada dia, a “escritora de verdade” que habita em mim. 

Não a pessoa que publica (por fim entendi que a publicação vem de muitas formas, e que algumas coisas vão acontecer quando menos estamos esperando. Aprendi que não se é mais ou menos escritor se publica ou não aquilo que escrevemos), mas sim a pessoa que acredita nas próprias histórias. Do jeito que dá, e no tempo disponível. 

Se eu pudesse voltar no tempo, se fosse me dada a chance de conversar ou mandar um recado para a minha “eu” do passado, eu sei exatamente o que gostaria de dizer pra ela: “um dia você vai escrever uma história. É muito importante que você não desista dela”